Os bons jogos imitam a vida

Em meados do primeiro tempo, a bola ficou acesa na nossa área. Quando é assim, não existe um Xavante capaz de reclamar de um chutão. Há ocasiões em que a beleza mora na segurança, nós meio que nascemos sabendo disso.

Mas o Gabriel Araújo contrariou esse desejo, quase súplica. Não só dominou-a, como usou a parte externa da canhota com a destreza de um marceneiro, para esculpir uma janela por debaixo das pernas de um dos caras deles.

O que veio depois dessa apneia não foi só alívio. Foi um conforto na alma. Porque há momentos na vida, que os bons jogos sempre imitam, em que um detalhe muda o curso de tudo. E ali foi possível antever que, se do lado de cá da arquibancada havia uma tensão palpável, densa, dentro de campo nossos meninos estavam confiantes, compenetrados, assumindo riscos calculados, sem concessões à irresponsabilidade. O Brasil faz grandes coisas quando se comporta desse jeito.

Claro, uma peleia não se desenvolve de forma linear. Tanto que o Internacional abriu o placar ao final do primeiro tempo, depois da bola cruzar toda nossa área e encontrar um pé calejado de andar ali no Navegantes. Taison fez um a zero, homenageou o filho que está a caminho, mas a fertilidade parecia também brilhar do nosso lado.

Na segunda etapa, meio que empurrado pelas circunstâncias, o Brasil resolveu assumir riscos, mas dessa vez no campo adversário. E na primeira descida do Marcelinho, um pedaço do Beira-Rio não deu início a uma festa que, enquanto esse texto é escrito, ainda não acabou.  

Do lado direito adversário, nosso lateral abre estradas com o ímpeto de um Juscelino. Encontrou o Marllon, maestro de Aracati, que cruzou certeiro como a brisa de Canoa Quebrada na cabeça do Paulo Victor. Nosso 11 se especializou em estufar redes porto-alegrenses. 

O resto? Bem, quem fechar os olhos, sabe narrar em detalhe o lance capital dessa noite de quarta-feira.

O Internacional tentou, mexeu, girou, alçou na área, houve até quem tentasse negar a liturgia do Fair Play, mas se confirmou aquilo que estava desenhado na caneta que o Gabriel Araújo meteu no início.

Quando há confiança, o Brasil faz coisas que passam a viver em nossa memória.

Gauchão 7ª Rodada – Internacional 1×1 Brasil – Fotos Volmer Perez

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